A soberba vivisseccionista

Sônia T. Felipe


Já na sua primeira frase, o secretário regional da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, de Campinas, SP, o farmacologista João Ernesto de Carvalho, comete um grave erro, ao escrever coisas que não constam do artigo de minha autoria publicado pela Folha de S. Paulo no sábado 09/11/07, no qual defendo que a ciência pode abrir mão do uso do modelo animal-vivo, por servir-se deste modelo sem alcançar sucesso na “cura” dos males que afetam enorme parcela dos seres humanos ao redor do planeta.

No artigo de minha autoria não se pode ler uma frase sequer negando que a pesquisa vivisseccionista tenha produzido drogas para tratar dos sintomas das doenças crônicas e agudas que representam a causa da maior parte das mortes humanas a cada ano. O que afirmo é que apesar das mais de seis décadas de intensas pesquisas vivisseccionistas não foram cumpridas as promessas de “cura” do câncer, do diabetes, da hipertensão, dos distúrbios circulatórios, da vulnerabilidade às infecções, do mal de Alzheimer, do mal de Parkinson, da esclerose múltipla, etc.

Minhas afirmações não são “sem fundamentação científica”, nem “totalmente inverídicas”, conforme o afirma o autor da carta divulgada no Painel do Leitor, da Folha de S. Paulo no dia seguinte ao da publicação do meu artigo.

O autor afirma que “é muito fácil de comprovar” que existem drogas que “curam” ou “controlam essas doenças”. Não nego que existam drogas que minimizam os sintomas de certas dessas e de outras doenças, em “alguns” pacientes humanos. A verdade é que as mesmas drogas não resultam na “cura”, nem no “controle dessas doenças” em muitos outros humanos. Se o resultado desses experimentos fosse “científico”, não deveria resolver o mesmo problema em todos os casos? Por que os fracassos?

Ao defender a abolição da vivissecção, não afirmo que nada do que se fez até hoje teve qualquer resultado. O que afirmo é que os resultados são pífios, levando-se em conta seis fatores: 1.) mais de meio século de vivissecção seguindo um único modelo que promete ser capaz de levar o cientista aos resultados esperados, sem que os males humanos tenham sido curados pelas drogas elaboradas com base neste modelo; 2.) investimentos trilionários feitos por governos e empresas na produção de drogas, não na prevenção das doenças humanas; 3.) a soberba dos vivisseccionistas que afirmam junto à opinião pública que seu modelo de investigação é imprescindível para a produção do conhecimento humano sobre as patologias devastadoras da saúde humana; 4.) o número ínfimo dos casos de “cura”, comparados ao assombroso número de “mortes”, sofridas por humanos que fizeram uso das drogas criadas e vendidas a eles para livrá-los das doenças; 5.) a diversidade da expressão de uma mesma patologia em diferentes sujeitos humanos, algo impossível de ser “espelhado” no modelo animal-vivo empregue pelo vivisseccionista; 6.) a soberba dos vivisseccionistas que afirmam que “toda a ciência” estagnaria se a vivissecção fosse abolida. Com relação a esta última questão, é certo que a ciência vivisseccionista deixaria de existir, mas daí a afirmar que “a ciência” deixaria de existir, e que mergulharíamos nas trevas medievais, não faz o menor sentido. Toda a ciência teria enormes progressos, porque os investimentos hoje consumidos pela vivissecção seriam destinados a pesquisas relevantes para a saúde humana, não para a indústria química lucrar.

Considerando-se que o quadro das doenças devastadoras que afetam a população humana ao redor do planeta não diminuiu nas duas últimas décadas, apesar das centenas de milhares de drogas comercializadas pela indústria farmacêutica com a promessa ao paciente e aos seus familiares, de “cura”, uma cura que na maioria absoluta dos casos nunca chega, e considerando que os investimentos em dinheiro, cérebros, equipamentos, espaço físico e poder intelectual centrados no modelo vivisseccionista não surtem efeitos proporcionais ao seu montante, não seria razoável concluir que todo esse montante devesse ser multiplicado ainda mais, com o custo que representa para os mais de 500 milhões de animais exterminados nesses experimentos anualmente, ao redor do mundo vivisseccionista.

Portanto, o autor não deveria “ficar estarrecido” ao ler as “afirmações” contrárias à ciência vivisseccionista. Se fizer um esforço mínimo para botar na ponta do lápis o investimento que este modelo de ciência consome dos governos, das agências financiadoras e do bolso dos pacientes ou de suas famílias, que pagam remédios caríssimos que nunca os livram de todos aqueles males, o presidente regional da SBPC de Campinas poderá concluir que algo está dando errado, algo volumoso está escapando pelos ralos das pias dos laboratórios vivisseccionistas, não apenas o sangue dos animais exterminados nos experimentos, mas também a inteligência científica da juventude forçada a moldar-se a este único modelo para a cura das doenças humanas, quando esta mesma inteligência deveria ser direcionada para a busca da prevenção da maioria destas doenças, que não são de ordem genética, mas “ambiental” e “cultural”.

Quanto aos produtos de higiene pessoal e cosméticos, é certo que até a década de 80 do século XX, na Europa e nos Estados Unidos eram necessariamente testados em animais vivos (Draize Test e LD 50), levando à morte em agonia milhões de coelhos, para citar apenas uma das várias espécies usadas nestes testes, em cujos olhos os componentes eram testados. Mas, se fosse buscar um pouco mais de informação, o senhor João Ernesto de Carvalho já teria lido alguma coisa sobre o que se fez para eliminar definitivamente tais testes na produção desses itens. Aliás, a comunidade européia decidiu que a partir de 2010 não poderão mais ser comercializados tais produtos em seu território, exatamente por serem testados em animais. Estarrecida fico eu, com sua desinformação.

Quanto aos aditivos colocados nos alimentos, é de lastimar que não tenha lido o quanto são tóxicos e o quanto respondem pelo alto índice de câncer em humanos. Em outras palavras, em vez de defender a vivissecção como forma apologética de defesa dos químicos artificiais usados pela indústria da comida para garantir que o produto não apodreça dentro das latas e sacos antes de serem consumidos pelos humanos, o missivista deveria lamentar que a comida humana tenha se tornado um produto sintetizado a tal ponto que os nutrientes esperados que deveriam garantir a saúde humana não mais se fazem presentes nela. Em seu lugar foram introduzidos, pela pesquisa vivisseccionista, sintéticos de todo tipo, cor, sabor e aroma. A vivissecção é responsável, sim, por esta desgraça na qual a dieta humana se tornou. Isto não é um mérito da pesquisa vivisseccionista. É resultado danoso. Não pode ser computado como algo positivo, algo em cujo nome se deva defender a prática vivisseccionista. Quanto aos adoçantes, é verdade, foram desenvolvidos em modelo animal vivo, e veja o que se descobre somente vinte anos mais tarde, com relação ao aspartame: é cancerígeno, além de alterar o metabolismo de quem o usa prolongadamente, fazendo com que a pessoa não consiga mais perder o excesso de peso.

Quanto às vacinas, é preciso dizer que o próprio Sabin reconheceu que perdeu uma década de sua vida seguindo o caminho errado ao adotar o modelo animal, quando seus antecessores haviam acumulado informações valiosíssimas obtidas dos estudos feitos em humanos infectados. O “trabalho na prevenção [da pólio] [afirma Sabin] foi atrasado por uma concepção errônea da natureza da doença humana, baseada em falsos modelos experimentais em macacos”, apud Greif & Tréz, A verdadeira face da experimentação animal, 2000. Os cientistas haviam encontrado o vírus no trato digestivo, mas os que usavam modelo animal insistiam em fazer a vacina centrando-se nas vias respiratórias.

Com isso não se está a dizer que todo esforço de tantas pessoas inteligentes e bem-intencionadas nunca resultou em nada. O que se deve entender, é que todo este esforço, se empregue em modelos não vivisseccionistas, também teriam levado a resultados valiosos. Hoje, a lógica imperante é a seguinte: se as descobertas não levarem à proposição de nenhuma droga, mas à proposição de projetos direcionados para redesenhar a forma como estamos vivendo e comendo há mais de três décadas, tal modelo, que não traz lucro algum à indústria das drogas é varrido para debaixo do tapete. Isto é o que ocorre hoje com as pesquisas não voltadas para a venda de drogas, mas para a prevenção das doenças.

Quanto à sua última questão, a da coerência moral, não há dúvida de que é a única contribuição valiosa de seu artigo: é preciso abdicar de produtos de origem animal, seja de animal vivo ou morto, e de todos os outros que foram produzidos pela indústria da vivissecção. Obrigada por escrever que quem não segue à risca o princípio da não-violência é hipócrita. Concordo absolutamente consigo. Aliás, procuro viver há mais de duas décadas de acordo com este princípio. Quanto ao último parágrafo de seu artigo, o que se refere ao aumento na expectativa de vida, os próprios médicos reconhecem que ele se deve em especial aos hábitos de higiene e aos cuidados com a alimentação, incorporados ao longo do século XX, por boa parcela dos humanos esclarecidos, não à vivissecção.

Obrigada por rebater minha posição.
Atenciosamente,
Profa. Dra. Sônia T. Felipe / UFSC
Autora de: Ética e experimentação animal: fundamentos abolicionistas (Edufsc, 2007, 351 p.) e, Por uma questão de princípios (Boiteux, 2003, 211 p.)

[Enviado à Folha de S. Paulo em 12/11/07]

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Sônia T. Felipe, 53, doutora em filosofia moral e teoria política pela Universidade de Konstanz (Alemanha) com pós-doutorado em bioética-ética animal pelo Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa (Portugal), é professora da graduação e da pós-graduação em filosofia e do doutorado interdisciplinar em ciências humanas da Universidade Federal de Santa Catarina.

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